Blog do Enio

Meia maratona em detalhes

Ontem contei como foi o antes e o planejamento para a Meia Maratona de Florianópolis. De tudo aquilo que foi planejado, o mais difícil mesmo era fazer as parciais dentro do pretendido. Por uns 10 km eu sei que sempre deu, mas depois era um mistério. Lap manual, sem gel, sem água, em jejum e o aquecimento foram tranquilos. Nada muito diferente do que faço. Desta vez, dei atenção especial ao aquecimento. Só que achei que a largada era às 7h. Na verdade, era às 7h10. Com isso, acabei me adiantando 10 minutos no aquecimento. Não atrapalhou, mas podia ter terminado ele mais perto da largada.

Uma das partes mais importantes desta meia foi o lap manual. Sabia que o Garmin ia marcar a mais. Ele TEM QUE marcar a mais. Se deixasse no lap automático, ia ouvir o apito e ver a placa lá na frente. Decidi que ia fazer tudo manual. Confiaria na prova e correria, em todos os sentidos, o risco. Quando é meia maratona, acredito mais na organização. A chance de fazerem coisa mal feita nos 21 km é menor. Na tela do meu simples Garmin Forerunner 10, com apenas dois campos de visualização, deixei o tempo total de prova e o ritmo da volta. Assim, controlava meu ritmo daquela volta e daquele suposto quilômetro e não pensei que tinha algo errado quando a volta manual mostrou 1 km em 5:29 e o seguinte em 3:56. Eu sabia que estava no ritmo. O tempo total também me dava essa noção.

Sobre a prova em si. Queria fazer como sempre treino. Em jejum, sem água, sem gel, sem frescuras. E assim foi. Só faltava mesmo acertar a parte do ritmo. No sábado, até pensei em escrever no braço o que deveria fazer a cada 5 km, mas esqueci. Nem precisou. Durante uma corrida em que vou para tempo, ocupo minha cabeça com o ritmo e com as contas e somas e projeções. Para não criar demasiada expectativa, coloquei uma meta plausível: cada 5 km em 23:45, média de 4:45 min/km. O que me daria 10 km em 47:30, 15 km em 1:11:15 e 20 km em 1:35:00. Aí, sobrariam 5 minutos e 1,195 metros. Se seguisse isso certinho, provavelmente faria 1h40 baixo, mas seria meu recorde pessoal da vida, o que já seria muito bom.

Apenas para título de informação, foi durante a prova que calculei mais ou menos o total dos 15 km. É complicado somar números quebrados. Para ter ideia, eu pensava que era 1:10:45. Errei por 30 segundos. Fora isso, para não ficar a cada 5 km sem ter com o que me ocupar, estabeleci um objetivo de tempo para os 7 km, 14 km e 21 km. Peguei 1h40, transformei em minutos, dava 100 minutos, dividi por 3 e deu uma dízima periódica. No meio de uma corrida não pode dar dízima. Aí arredondei e botei como objetivo fazer perto dos 33 minutos. Se fosse abaixo, melhor, mas poderia ser um pouco acima. Só em casa fui perceber que podia ter escolhido 33:20, mas na hora tem coisas que a gente nem se dá conta. E foi tudo tão mal planejado e na hora que fiquei com um hiato do km 10 ao km 14 sem ter muitas contas para fazer. Tive que me virar de km em km.

Vamos dividir a meia em partes:

1 a 5 km – 23:26. média de 4:41. Distância que o Garmin marcou: 5,04 km.
Comecei devagar, já nem contando muito com o 1º km. Queria fazer abaixo de 4:50, mas não ia ser o fim do mundo. As coisas foram melhores que o esperado e saiu média de 4:46. Essa primeira parte dos 5 km pega uma vez os viadutos da prova, na ida. Ou seja, sobe e desce uma vez. Talvez tenha sido pela descida do viaduto, talvez pela leve descida da Beira Mar embaixo da Ponte Hercílio, talvez pelo começo de prova, mas recuperei o começo que nem foi tão lento assim e fiz o km 3, 4 e 5 com média abaixo de 4:40. Nessa parte, estava já com 19 segundos de vantagem com o que tinha me proposto. Em todas as parciais de 5 km, fiquei com alguns segundos de vantagem, como poderá ser visto no decorrer do texto.

6 a 10 km – 23:33 – média de 4:43. Distância que o Garmin marcou: 5,05 km
Tempo total: 10 km em 46:59.
Nesta parte, tinha a volta do viaduto da ida e mais um viaduto que só pegamos no retorno. Nestes 5 km foi também onde aconteceu o maior erro das distâncias no lap manual. O km 7 marcou 1,16 km e o km 8 teve 0,85 km. Como o km 7 pegava toda a terceira subida do viaduto mais uma subidinha da Beira Mar (é um falso plano), acabou saindo 4:44 de média. Os outros quilômetros, 6, 8, 9 e 10 saíram entre 4:37 e 4:40. Foi a pior parcial dos 5 km (a maior distância que o Garmin marcou também), mas o tempo dos 10 km seria minha terceira melhor marca da vida na distância.

11 a 15 km – 23:27 –  média de 4:41. Distância que o Garmin marcou: 5 km
Tempo total: 15 km em 1:10:26.
Depois do retorno para quem fazia 10 km, a pista era toda nossa e neste momento vi uma placa de marcação de quilômetro do outro lado da pista. Ela indicava para os atletas que estavam voltando que ali era o 20º km da prova. Fazendo uma conta rápida, logo me dei conta que o retorno não seria no elevado do CIC e também não seria no Iguatemi. Até olhei o mapa do percurso nos dias anteriores, mas nem me lembrava disso. O retorno seria na rótula da UFSC. É uma parte crítica. Nós vamos muito longe para voltar. Um dos problemas dessa parte é o asfalto da Beira Mar ser inclinado. Perdi um pouquinho de tempo no km 12 e 13, mas recuperei nos outros dois. Cada placa de km que eu via me fazia acelerar um pouquinho para tentar melhorar o ritmo. Ao ver no km 15 o total de 1h10, já comecei a fazer as contas. Opa. Tenho 29 minutos para fazer 6 km. Se 30 minutos é 5 min/km, 30 – 29 é 1 minuto, que é 60 segundos, que dividido por 6 dá 10 segundos por quilômetro. Logo, média de 4:50, sendo que meu pior ritmo foi o do primeira volta a 4:46. Parecia que ia sair o sub 1h40.

16 a 20 km – 23:22 – média de 4:40. Distância que o Garmin marcou: 5 km
Tempo total: 20 km em 1:33:48.
Acabou sendo a parcial mais rápida da prova, mas ela é meio mentirosa. Explico. Do km 17 ao 20, mantive a média entre 4:42 e 4:44. Era aquela parte chata que já tinha ido e agora tinha que voltar. Logo antes de completar 15 km, havia o retorno. Com isso, do outro lado da pista avistava os amigos. Cumprimentá-los, falar com eles, sinalizar, enfim, fazer contato de alguma forma me fez correr mais. A parte psicológica deve explicar. Fiz o 16º km com média de 4:33 e houve momentos que estava a 4:24. Diminui um pouco e mesmo assim ficou baixo. Acho que isso pode ter me atrapalhado nos quilômetros seguintes. Nesta parte final, cada km alcançado era uma conta nova. 16 km em 1h15. Opa, opa. Fazer 5 km em menos de 25 minutos é fácil. Só não poderia deixar o ritmo cair. 17 km em 1h19. ORRA!  Tenho mais de 20 minutos para fazer 4 km. VAI DAR! 18 km em 1h24. O quê? Mais de 15 minutos para 3 km? Lógico que vai dar! Sou cético, mas no km 19 com 1h29 eu acreditei. JÁ DEU! Só se fizesse a maior cagada da minha vida ou quebrasse muito feio para não conseguir. Aí, a cabeça já começou a trabalhar com a possibilidade real de sub 1h39. O km 20 só me confirmou isso.

21,0975 km – 1 km em 4:34 – 0,975 metros em 21 segundos. Distância que o Garmin marcou: 1,12 km
Tempo total: 1:38:43 – NEW PERSONAL BEST MOTHERFUCKER WORLD RECORD
Faltava 1 km e o último km TEM QUE SER o mais rápido. No treino é assim. Na corrida também. No km 20, até tentei acelerar, já dar o sprint, mas não foi. Pelos laps manuais, não foi o mais rápido, mas pelo ritmo foi. Confesso que tentei acelerar e fazer abaixo de 4:30 o último quilômetro, mas não deu. O peito do pé começou a doer, talvez pelo nó do cadarço e as pernas não quiseram ir. Estava até achando que não ia fazer nem ritmo abaixo de 4:40. Só que aí apareceu a reta final, o portal, a chegada, tudo, e o ritmo começou a aumentar naturalmente, de repente, como se nem tivesse corrido 21 km. Foi aumentando, aumentando, quase esqueci de apertar o lap manual da placa de 21 km, fui chegando, acelerando e olhando aquele maldito relógio da chegada. Queria chegar no tempo bruto também abaixo de 1h39. Não deu, mas o recorde saiu e o ritmo dos últimos metros ficou em 3:43 de acordo com o Garmin. Durante este último quilômetro, pensei que dava para fazer 1:38:30, mas me dei conta que não ia rolar quando precisava fazer quase 100 metros em 8 segundos. Nesses metros finais e depois, fiquei até emocionado.

BÔNUS – MOMENTOS 7 km

1 a 7 km – 33:48 – média de 4:50.
Parte que poderia ser crítica se estivesse com o lap automático. O km 7 teve 1,16 km, de acordo com a volta manual. O km 8, por outro lado, teve 0,85 km. Ou seja, a placa dos 7 km estava um pouco à frente. No entanto, seguindo meu ritmo de volta, vi que estava em 4:44 min/km. E no 8º km fiz 4:39 de média. O total dos 7 km deu muito mais alto, cerca de 40 segundos a mais. Achei estranho, mas continuei seguindo o ritmo da volta, que estava constante. Esperava que em breve fosse ser corrigido e já na placa de 8 km as coisas se ajeitaram. Por essa razão, o primeiro terço da prova não considerei nas minhas contas de cabeça porque estava fora do normal e a projeção não ia estar certa.

8 ao 14 – 31:59 – média de 4:34
Tempo total: 14 km em 1:05:47
Se antes o tempo foi maior, aqui o tempo foi menor em quase 50 segundos, devido ao 8º km ser “menor”. Se fosse para deixar as coisas mais reais, diria que a primeira parte foi em 33:08 e a segunda parte em 32:48. A soma desta segunda parte, no entanto, está normal, já que equalizou o erro do km 7 e 8. Então, na primeira parte, em teoria, passei pouco acima do objetivo e a segunda parte abaixo. No total, 13 segundos de vantagem pelo que tinha pensado.

15 a 21 – 32:35 – média de 4:39
Tempo total: 21 km em 1:38:22
A parcial de 7 km mais rápida, mas também influenciada por aquele km 16 exagerado. De todo modo, fechei ela com 38 segundos sobrando. Era impossível não fazer o sub 1h40 e o sub 1h39 estava bem na minha frente. Quando deu a dízima, arredondei para baixo porque pensei que se fizesse tudo em 33 minutos, sobraria 1 minuto para fazer 100 metros. Se pensasse em 34, o total daria 1h42. Coloquei o objetivo mais baixo para, caso não conseguisse ficar nele, ainda que ficasse um pouco acima, estaria no tempo de recorde pessoal e possivelmente de sub 1h40.

BÔNUS PLUS – ALIMENTAÇÃO
A parte mais rápida e fácil. O último alimento que comi foi um brigadeiro às 17h na festa de aniversário da filha da minha prima. Desde lá, só água. No domingo, acordei e tomei um copo de água. Durante a prova, um copinho de água no km 12 e no km 18. Só para molhar a boca e o rosto. Isotônico não. Gel não. Banana doce não.

Acredito que não esqueci de nada. Foi uma prova onde tudo deu certo e o ritmo encaixou desde o começo. Não me matei e nem senti que estava quebrado ou passando mal. Foi o dia. Simplesmente fluiu. Sem muito esforço, o ritmo se mantinha. Muito diferente da Golden Four SP, onde para sustentar 5 min/km foi uma tortura. Gostei muito de usar o lap manual e provavelmente é isso que farei nas próximas meias.

Agradecimentos ao Adriano Bastos, que com as planilhas me fez voltar a ter a disciplina que perdi em algum momento lá por 2013. Consegui ter uma rotina e o objetivo do ano (pensava até que era da vida nas meias, mas agora vou rever isso) foi alcançado. Desde abril, venho treinando regularmente. Seis meses depois, nasceu o recorde.

Foi o post mais longo e detalhado que já escrevi aqui. Fiquei mais de duas horas escrevendo e montando ele. Mais tempo do que fiquei correndo. Cansa mais, inclusive. Aproveitem. Isso não deve se repetir. Agradeço a todos que leram o texto do começo ao fim. Tem louco para tudo.

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Enio Augusto
Começou a correr em 2008. Não estava acima do peso, mas descobriu que gostava de correr. Parecia simples e fácil. Corre mais por teimosia do que por algum talento natural. Sonha em correr mais rápido e acha que um dia vai chegar lá.
https://porfalaremcorrida.com/blogdoenio

9 thoughts on “Meia maratona em detalhes

  1. Muito bom, Enio! Não há coisa melhor do que uma corrida que simplesmente flui… Qual é o objetivo para a Golden Four Brasília? Corro a Meia do Sol em Natal no mesmo final de semana e vou (pretendo?) fazer minha última tentativa de 1h40 esse ano.

    1. Valeu! Quando dá certo é muito bom.
      O objetivo é sub 1h40, mas agora dá para tentar melhorar o tempo. Vamos ver o que acontece no dia.
      A Golden Four DF também é minha última meia do ano. Tomara que saia pelo menos sub 1h45.
      Vamos lá! Rumo ao sub 1h40! Força! \o/

  2. Enio, parabéns pela marca em Florianópolis.
    O texto ficou emocionante !!
    Particularmente, não sei como você consegue fazer contas durante uma corrida no ritmo 4:40.
    Estou treinando aqui, mas será difícil, para mim, fazer uma boa marca aqui. Paciência, fica para o próximo ano.

    O horário de verão fará uma bela largada ao nascer do sol !!!

    Ps. A subida do Km 9 ao 14 (eixão) não é tão íngreme assim. É só encaixar o ritmo certo !!!

    Tudo de bom,

    1. Obrigado.
      Gosto de ocupar a mente com contas e projeções. Pelo menos tenho ideia como estão indo as coisas.
      Temos que ir no dia e fazer o melhor possível. Pode não ser o tempo que a gente quer, mas foi o melhor daquele dia.
      Tomara que não esteja muito quente. Talvez seja meu trauma da corrida de 2013. Foi lá que o ritmo caiu. Este ano já vou preparado para a sofrência, pensando na recompensa das descidas depois.
      Abraço.

  3. Parabéns Enio, bela conquista
    Melhor do que o recorde, foi a regularidade em todos os trechos. Não consigo ser tão regular assim.
    Que venha a Golden4!!!

    1. Nem eu sabia que conseguia ser tão regular assim. Dividir de 5 em 5 km me ajudou um pouco.
      Vamos ver o que sai na Golden!
      Valeu!

  4. Uma pergunta, vc mencionou o seu Garmin Forerunner 10, eu quero comprar um, só tenho duvida na bateria, ele aguenta com o GPS ligado, uma maratona inteira? Umas 3 horas e meia ligado.

    1. Aguenta sim. Com certeza. Se a bateria estiver cheia, dá tranquilo. Aqui na meia, vai metade mais ou menos. No site, dizem que dura 5 horas.

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