Relatos de Corridas

Relato – Mountain Do Lagoa da Conceição

No último sábado, dia 03 de outubro, aconteceu mais uma edição do Mountain Do Lagoa da Conceição, uma corrida de revezamento entre bosques, lagoas, montanhas, muitas trilhas e paisagens de tirar o fôlego, com belezas naturais que encantam os atletas em cada percurso. Na semana passada, recebemos o relato de um treino sinistro de mais de 54 km. Desta vez, a Carla Luzia Baião nos enviou o relato da corrida feito pelo Rafael Eduardo Butzke Quintana, um dos malucos que participaram do treino. Ele, o Eduardo Legal e o Celso Benitez foram para correr os 65 km da prova. Segue o relato:

“Podia ser só mais um fim de semana comum, mas quem disse que não foi? Dormimos lá pelas 2 da manhã em meio aos preparativos e ansiedade por mais um ULTRA-Treino que viria na preparação para o INDOMIT ultra trail de 80Km. Só que esse seria feito na prova do MD da Lagoa da Conceição – 65km. Face ao treino de 55K do fim de semana anterior e duas maratonas no mês passado (a de Santa Catarina e a de Punta del Este), todo cuidado seria pouco pra evitar algum tipo de lesão!

Abraços da galera e desejos de boa prova (Edson Cabral, Alessandro Moreira, Tay Nitz, Marlene Freitas e Eduardo Schiavo com últimas orientações). Largamos do LIC, eu, Celso Benitez, Eduardo Legal, inscritos numa Dupla (composta por um TRIO, que faria a prova SOLO. Confuso né?). Deve ser por isso que a Aline Ugolini apelidou a dupla de CABEÇÃO na hora da inscrição. Partimos às 8h40 e com receio em concluirmos, já que eram previstos no regulamento o máximo de 10 horas de prova, contado das 8h quando largaram as primeiras equipes. Então, só nos restariam restariam 9h20 para tentar completar nossa prova “treino”.

Nos primeiros 2 km, aumentei um pouco o volume do som para não escutar os puxões de orelha do Celso reclamando: “estamos rápido, estamos no pace da Maratona”. Mas eu já tinha feito esse trecho no ano anterior e sabia que a alegria acabaria logo a frente com água, areias e dunas. Então, por que não correr um pouco mais solto ali? Seguimos na companhia de alguns conhecidos, como a Simone Vieira, que depois nos largou para trás. Mais alguns minutos e logo vieram os trechos com água até o joelho seguidos de areia fofa para irem “empanando” os tênis e dando aquela sensação que estávamos na academia andando com aquelas caneleiras com pesos presas aos pés.

Nas dunas da Joaquina, o vento soprava lateralmente e fazia com que os grãos de areia “esfoliassem” a pele. Nitidamente me senti em um “jateamento de areia”, mas saímos esfoliados e rejuvenescidos com certeza. Graças às chuvas, as dunas estavam com seu grau de dificuldade “facilitados”, pois estavam menos fofas que o de costume, mas pagaríamos o preço desse benefício mais à frente com lama. Entramos na trilha e um morrinho considerável à frente, rendendo um tombo na descida devido à lama, onde encontramos Ana Clara que entrou na disputa pra ver quem cairia mais. Ônus das chuvas da semana e sem ter onde se segurar devido a vegetação nativa toda com espinhos nas laterais da trilha.

Jacks, dessa vez na função staff, orientando e assim findávamos os trechos 1 e 2 chegando à Praia Mole, primeiro pit stop para alimentação, hidratação e encontro com nossas staffs Malu Baião Legal, Carla Luzia Baião e Aline. Fechávamos aproximadamente uns 15 km e seguimos para o trecho 3, que na minha opinião é o mais bonito e mais difícil da prova, se fosse para escolher um. Mas para quem estava fazendo tudo, descobri que o mais difícil era sempre o próximo. O trecho 3 sobe o morro mais alto da prova, com boa parte do caminho em areia fofa, porém o visual lá de cima para a Lagoa da Conceição e para o mar é a vista mais incrível de todo o percurso.

Muito cuidado para descer, pedras lisas e escorregadias e vem o trecho 4, o mais plano da prova, na Barra da Lagoa e passa por dentro de um trecho bonito com árvores onde o Eduardo Legal insistiu em dar uns dois peixinhos na reta, tropeçando em alguns galhos pelo caminho. Fui literalmente atropelado por um cachorro e em seguida pegamos a Praia do Moçambique até o Rio Vermelho, parte que seria a dificuldade deste percurso, normalmente a areia é muito fofa, mas graças às chuvas a areia do Moçambique estava mais light e sentimos um pouco da benevolência divina conosco para o trecho 4, já que o vento também estava a favor

Encerrando esse trecho perto de 4 horas de prova e ainda com uns 28 km (nem na metade), um pit stop mais longo para uma melhor alimentação (almoço em família), pois já passava do meio-dia. Notícias de que o Vicente de Paulo Castro havia voado no Moçambique e demais equipes vinham super bem. Pernas para cima, meias secas, ânimos revigorados e seguimos em frente. Saímos em direção ao Rio Vermelho, mas 2 km à frente começamos a perder um integrante, talvez o mais experiente nesse tipo de provas, que este ano fez todas as provas nesses tipos de terrenos, sobe morros e corre na areia fofa como se estivesse em retas, e ficamos bastante apreensivos.

Achávamos que havia dado uma paradinha rápida e logo nos alcançaria com o de costume, mas não foi bem assim. A semana que passara de trabalho, aulas e poucas horas de sono fez com que o Eduardo Legal se exaurisse antes do previsto e trotasse, caminhasse e se virasse. Não nos 30, mas dos 30 aos 40 km, até o Campo do Lili, onde seria nosso 3º pit stop. As meias secas também não duraram muito. 2,5 km após a troca tivemos que passar uns 200 m com água até a cintura, o que acabou logo com aquela sensação de pé sequinho e “estou pronto pra outra”. Mesmo assim, o fato é que a ausência do Eduardo Legal nos fez correr mais.

Queríamos chegar logo aos 40 km para saber se ele havia ligado pra Carla, pois era o único que estava com celular, se havia se lesionado, se estava tudo bem. Eis que chegamos lá e ao invés de obtermos notícias, afligimos nossas super staff com a ausência de um membro da equipe. Fizemos um pit stop relâmpago para que elas pudessem ir ao resgate e partimos sem notícias. Nosso próximo encontro seria no último trecho, já a uns 3 km da chegada, após o final da Costa da Lagoa, trecho onde não podiam chegar com o carro. Foram uns 20 km em que a ânsia por notícias era maior do que a dor do percurso.

Nos 50 km, ouvi o Celso clamando por uma pausa de 2 min de alongamento, mas me recusei a parar até encontrarmos nossas staffs para ter notícias do nosso guerreiro. Do ano passado, me lembrava do trecho 8 como uma trilha, que depois passava por umas casinhas beirando à Costa da Lagoa, e queria passar logo para chegar no nosso apoio. Mas o que não lembrava era que o trecho 8 era tão cascudo e se tornou dificílimo para nós (já que era o último dos 50-65km). Já estávamos com 55 km e o sobe e desce em meio a trilhas, pedras, lamas e escadarias não terminava mais. Até que ouço uma voz conhecida: era a Fabiane Pessi, como sempre fazendo o que mais gosta, a parte off-road.

Saímos da trilha, encontramos nossas staff, descobrimos que o Legal havia chegado no campo do Lili quase no nosso encalço, porém achara por bem encerrar o treino ali. Creio que para não nos passar com uma perna só. Um Kit Kat, Uma Coca-Cola, alma de volta ao corpo, olho no Garmin e descobri que a ansiedade por notícias do Legal nos fizera correr mais rápido a segunda metade da prova, o que daria a possibilidade do que imaginávamos, que era fazer entre 9 a 10 horas, e ainda ficar abaixo de 8 horas.

Parti para os últimos km correndo como na largada, a fim de tentar cumprir uma nova meta após os 60 km, imposta por mim mesmo aos 44 do segundo tempo: um sub-8h. Por fim, tempo total de 8:00:58, sem qqualquer manifestação de cãibras, sem sofrimento demasiado (uma vez que correr sempre tem um sofrimentozinho, seja pra 5, 10 ou 21 km). Acho que os 58 segundos foram culpa do Kit Kat, mas o mais engraçado foi que nessa correria com o olho no Garmin, abri uns 2 minutos do Celso (que vinha desfrutando da companhia da Aline nos km finais).

Isso fez o narrador da prova ficar meio confuso, pois na minha chegada ele fez com a maior empolgação, anunciando, “vem aí mais uma dupla, número 204, “Cabeção”,” e uns minutos depois aguardando o Celso cruzar a linha de chegada ouvi ele falando: “vamos lá, mais uma dupla chegando… 204 de novo?”. Acho que ele pensou: “são mesmo uns “Cabeções””. Valeu o treino e a todos da Educative Assessoria Esportiva que nos apoiaram de alguma forma!”

*Tem algum relato de treino ou corrida e quer contar como foi? Envie para o Por Falar em Corrida.

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Por Falar em Correr
Podcast sobre corridas de rua.
http://porfalaremcorrer.com

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