Alguém segure o ceguinho

Relato enviado pelo ouvinte Flagner Camargo, de Curitiba, sobre a participação dele na Maratona de Curitiba, que aconteceu no dia 15 de novembro:

Relutei um pouco em escrever este relato, mas pensei: “Que sirva para alguém, nem que seja de mau exemplo (rs)!”.

Como sou Deficiente Visual, segundo as regras da CBAt usadas no Regulamento da Maratona de Curitiba, sou obrigado a correr acompanhado de um atleta-guia. Até aí nenhuma novidade. Mas para entender melhor vou voltar um pouco no tempo.

Maratona de Curitiba de 2014, corri acompanhado do colega Enio Santos, personal trainer, que além de me guiar, passou-me os treinamentos para esta prova. Treinamentos estes que fiz “quase” todos e “quase” bem. Largamos em um ritmo um pouco mais forte do que deveríamos e fomos cobrados logo lá pelos 25 km. Quebradeira, prova traumática, sofrida, finalizada a duras penas.

Fui para casa frustrado e prometi para mim mesmo que não sofreria daquela forma em 2015. Sim, eu terminei a prova já pensando na próxima, diferente da maioria das pessoas que termina uma maratona prometendo que NUNCA mais fará outra, embora esta promessa costume durar menos de uma semana Voltei aos treinos no primeiro semestre focado em provas de distâncias menores e, a partir de agosto, com foco exclusivo na Maratona de Curitiba. Em todos os treinos me lembrei da quebradeira de 2014. Fazia sempre um pouco mais do que deveria.

Em setembro, aconteceu o Revezamento das Nascentes do Iguaçu, uma prova de 110 km realizada em equipe. Nasce a EquiPileque, mas isto é história pra outra hora. No meio da conversa, um dos colegas da EquiPileque (André, ultramaratonista) se prontificou a ser meu guia na Maratona em novembro. Inscrição feita, atleta-guia, equipe apoiando e se preparando também para a Maratona, estava tudo indo bem.

Domingo, 7h, largamos, em direção aos 42 km. Inicio de prova mais forte do que o planejado (lá vai o cavalo paraguaio de novo!). Lá pelo km 3 eu começo a me preocupar com o ritmo forte e conseguimos baixar uns 15 segundos. Ficou confortável para mim e, aparentemente, para o André também. Lá pelo km 25 o André começou a reclamar de um desconforto na coxa, depois tornozelo, depois ombro, e isso só durou 3 km até ele “quebrar”.

E agora? Para tudo, André tenta se alongar, mas achou que não dava para seguir em frente. Outros atletas passando e eu angustiado. Em hipótese alguma iria abandonar o cara ali e seguir sozinho. Ele pediu a um outro atleta que seguisse comigo, alguns outros colegas apoiaram, o colega aceitou e lá fomos nós. Alguns dias antes, um colega (Eduardo) se prontificou a fazer apoio de bike na Maratona e conversamos sobre o assunto, sobre o regulamento, sobre segurança e etc. Lá estava ele no domingo. Naquele momento, com o André quebrado, pedi ao Eduardo que o apoiasse no que fosse preciso, e que eu seguiria.

Durante o percurso, vim a conhecer o Luiz Eduardo. Uma história de superação muito legal, fazendo sua Maratona de Renascimento, mas vou deixar que ele conte (se quiser) sua história. Só digo que é uma grande superação pessoal pra ele. Fui com o Luiz Eduardo por quase 10 km, mas eis que ele também apresenta sinais de quebra, totalmente justificados pela sua situação (lembram que comentei sobre a Maratona de Renascimento?). Estávamos passando pela Rodoferroviária, pouco antes do temível Viaduto do Capanema, que assusta quem encara a Maratona de Curitiba, quando o Luiz me pediu desculpas e que eu seguisse.

Naquele momento me bateu o desespero e ao mesmo tempo aumentou minha vontade de terminar aquela prova, mesmo que me desclassificasse, mesmo sem guia. Em vários pontos da prova encontrei com conhecidos, correndo ou torcendo. Eu tinha que terminar aquilo. Tinha que espantar aquele fantasma de 2014. Subi o Viaduto do Capanema com “sangue no olho” literalmente, só pensando em terminar a prova.

Eu procurava encontrar alguém que pudesse me guiar até o final da prova, mas não conseguia identificar ninguém. Nessa parte da prova, por volta do km 38/39, ou os atletas estão bem fortes e conscientes dos seus ritmos (aqueles mais experientes que se prepararam de verdade para a prova) ou estão quebrados. Quando já estava desistindo de encontrar um guia e aceitando a desclassificação no final da prova, aparece do meu lado, pouco antes do retorno da Visconde de Guarapuava, um outro atleta em ritmo parecido com o meu.

Pergunto a ele se pode me acompanhar até o final, e ele prontamente aceita. Na realidade, ele estava num ritmo um pouco mais forte que o meu, o que só ajudou. Luis Cesar me acompanhou por mais de 3 km até cruzarmos a linha de chegada. Prova concluída, classificação em primeiro lugar da minha categoria. Tempo total da prova dentro do planejado, sem quebras minhas pelo menos. Fantasma de 2014 expurgado da minha mente e, de quebra, QUATRO Anjos da Guarda!

A organização se equivocou na premiação, mas isso já está sendo esclarecido com o apoio da SMELJ – Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Juventude de Curitiba. E que venham as próximas edições da Maratona de Curitiba, com seus desafios, e suas surpresas que as tornam únicas ano após ano.

*Tem algum relato de treino ou corrida e quer contar como foi? Envie para o Por Falar em Corrida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *